quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Em busca da pizza perdida...

Há tempos eu deveria ter deixado o desanimo de lado para escrever sobre um fato curioso, mas não espantoso, que aconteceu comigo a mais ou menos quinze dias. Enfim, hoje estou aqui pronta para compartilhar com o grande público um episódio que caracteriza a minha vontade de mudar de vida financeiramente falando.

Certa manhã acordei extremamente mal-humorada, como em todas as outras, mas especificamente nessa, além do mal humor, um sentimento de revolta com o mundo me tomou por inteiro. O primeiro assunto discutido ainda na mesa do café foi que daquele momento em diante eu não iria mais ajudar o próximo comprando rifas, pizzas, cartelas de bingo e outras coisas de mesma natureza cujo objetivo final é contribuir com o orçamento de alguma instituição de caridade. Motivo para isso eu realmente não tinha, levantei da cama do avesso e pronto.

Dando a última golada no leite com achocolatado, juntei todas as minhas tralhas, joguei dentro da bolsa e parti para mais uma jornada no trabalho. Nem bem cheguei, registrei minha presença com o cartão de ponto e dei de cara com uma das minhas superiores. Chefes adoram ser chamados de superiores. Antes mesmo do
bom dia tradicional como vem acontecendo por três anos sem falhar uma vez, minha superior em questão veio andando para meu lado, carregando um bloquinho de cupons, cada cupom desses correspondia ao valor de 12 reais o equivalente a uma pizza.

A verdade era que como voluntária ela se ofereceu para ajudar a Associação de Cegos aqui da cidade. Sem demora, tudo que eu havia arquitetado em minha cabeça pela manhã desapareceu e então comprei um número que me o dava o direito de retirar uma pizza uma semana depois, na sede da associação que fica mais ou menos a dez quilômetros de onde moro. Bom já ia me esquecendo de dizer, o sabor que eu escolhi foi calabresa.


Todo o trabalho por um pedaço dessa belezura

No momento que entreguei o dinheiro comecei a pensar como eu poderia buscar a mesma sem causar nenhum problema para mim, que sem carteira de habilitação nem veículo próprio, o recurso que sobrou era transporta-la em um ônibus. Agora pare e pense comigo, imagine passar por uma roleta, dar o dinheiro da passagem para o motorista, guardar o troco e arranjar lugar para sentar, tudo isso segurando uma pizza. Definitivamente não ia ser fácil. Esse problema me tirou o sono durante todas as noites que antecederam esse triste episódio que caracteriza minha vontade de mudar de vida financeiramente falando, ou seja, minha ilustre pobreza.

O dia chegou e agora era comigo. Pulei da cama, tomei um banho e a pé fui até a Associação dos Cegos. Chegando lá, uma senhora das mais simpáticas com quem eu já pude conversar me atendeu e entregou o objeto o qual deveria chegar até o forno da minha mãe do mesmo jeito que estava a disposição nesse instante. Peguei-a e a partir daí comecei a caminhada mais angustiante de toda minha vida.
Já no segundo quarteirão eu me sentia exausta, a tampa da caixa começou a se levantar conforme o vento aumentava e quem andava ao meu lado pode ter uma prévia do que seria meu jantar naquela noite. Nesse ponto mesmo encontrei alguns mototaxistas e pensei que neles poderia estar à solução para meu problema. Mas como eu iria conseguir segurar uma pizza a bordo de uma moto, desbravando o trânsito maluco de Ribeirão Preto, uma cidade em obras, justamente em um sábado, dia em que todos os cidadãos em folga do trabalho resolvem sair para irem as compras?

Eis um dia calmo nas ruas de Ribeirão Preto

Abandonei a idéia imediatamente e continuei a via sacra. Mais duzentos metros andados e São Pedro resolveu dar uma mãozinha com alguns pingos de chuva esporádicos que após mais alguns minutos se transformaram em um belo toró. Pronto, agora o cenário está armado e você já pode entender melhor o perrengue que passei nessa maldita manhã de sábado, o dia que resolvi ajudar o próximo.


Diante dessa situação não havia mais para onde correr, a chuva aumentava, a pizza molhava e meu drama piorava. Eu não consegui abrir o guarda-chuva para diminuir a dimensão do estrago. Ou eu segurava o guarda-chuva, ou fazia força para a tampa não voar e assim a lingüiça calabresa e a cebola irem para os ares. Embaixo de uma marquise enquanto pensava em algum modo de chegar em casa sã e salva avistei outro mototaxista que naquela hora era minha última chance de sobrevivência. Se o prato principal chegaria inteiro eu não sabia, mas era a única oportunidade que eu tinha para sair daquele inferno.


Parei em frente ao senhor e perguntei qual a possibilidade que ele tinha de me levar de volta para casa, com o alimento em mãos e de alguma forma segura. Ele me respondeu que a única maneira seria dirigir muito devagar, mas muito devagar mesmo. Não pensei duas vezes, coloquei o capacete, agarrei a pizza e lá fomos nós a mais ou menos dois quilômetros por hora. No meio do caminho percebi que o motorista sofria de algum transtorno que lhe causava
tics nervosos. Sem mais nem menos, ele emitia ruídos estranhos que devido a ocasião transformava aquela viagem em algo ainda mais pavoroso. Depois de meia hora, o percurso que em condições normais qualquer um demoraria menos de dez minutos para concluí-lo acabou e de longe pude avistar meu quarteirão. Desci da moto, paguei o custo do serviço, entrei em casa e então me dei conta de que havia chegado e milagrosamente com a pizza inteira. Com a embalagem levemente molhada, mas inteira.

Mostrei-a minha mãe como se essa fosse um troféu. Um troféu para celebrar minha triste caminhada graças a um ato bondoso o qual eu tinha jurado nunca mais praticar.
Foi mais ou menos essa sensação que senti quando cheguei em casa.

Agora sinceramente eu não juro mais nada, nem ser boa nem ser má, nem ajudar, nem ignorar meu semelhante. A única coisa que prometo é que pizza, só de pizzaria com serviço delivery.


Até a próxima.

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